Para a glória de Deus!

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01/02/2014

“Seja entregue a Satanás”. Comentário Exegético de I Cor. 5:5

A tradução Revista e Atualizada no Brasil apresenta:
“Entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor.”
Sendo este um dos textos mais citados pelos nossos oponentes, crentes na imortalidade da alma, como prova da dicotomia que fazem entre corpo e alma, ele necessita de uma análise detida, para se chegar à conclusão exata do que Paulo queria dizer.
Os que ensinam doutrinas não defensáveis pela Bíblia, se valem de versos difíceis de serem explicados para nos confundirem e rejeitarem as mensagens que pregamos. Não nos devemos impressionar com as artimanhas dos inimigos da verdade, por mais especiosas que sejam, porque temos a verdade e esta não teme nem ataques nem confrontos.
Comentários Gerais
Em nenhum Dicionário ou Comentário Bíblico, encontramos uma explicação defendendo a extravagante idéia, do corpo ser destruído em conseqüência do pecado e a alma ser salva para o reino de Deus.
Para uma impressiva compreensão desta passagem devemos conhecer bem o contexto, porque este nos ajuda a entender o motivo da declaração paulina.
No primeiro verso do capítulo cinco lemos:
“Geralmente se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai.”
O relato do apóstolo nos dá a entender que ele ouvira esta desagradável história, provavelmente, através dos escravos da casa de Cloe (ver I Cor. 1:11). Concluímos, que das notícias indignas que ouvira, relatando o procedimento reprovável de alguns membros da igreja de Corinto, o caso mais escabroso era um pecado de incesto. Certa pessoa mantinha relações sexuais com a mulher de seu pai, evidentemente sua madrasta.
O vocábulo grego traduzido por imoralidade é “pornéia“, que significa prostituição, falta de castidade, fornicação. Em grego a palavra designava qualquer relação sexual proibida. A palavra “pornográfica” muito usada, entre nós, para designar gravuras ou literatura obscenas nos indica porque ela é apropriada para as mulheres decaídas. Paulo usando “pornéia” e não “moicheia” adultério, talvez indique, que o pai daquele homem já houvesse falecido. Não havendo nenhuma censura, por parte do autor da epístola à mulher, tem levado os comentaristas a concluírem que ela não era cristã.
A surpresa do apóstolo, de acordo com o verso dois, é que esta pessoa, apesar de seu pecado ser público e vexatório para a incipiente comunidade cristã, ela continuasse desfrutando da comunhão da igreja. Ele censura duramente os membros da igreja, por sua complacência, em face deste notório escândalo. Baseado em sua autoridade apostólica, mesmo ausente (estava em Éfeso como nos indica o capítulo 16 verso 8), sugeriu a sua sentença – o afastamento do faltoso ou a sua excomunhão da igreja.
O torneio frásico para indicar esta disciplina – “seja entregue a satanás para destruição da carne” tem trazido alguma perplexidade aos comentaristas, porque ele parece destoar com a harmonia que existe entre as doutrinas bíblicas.
Para a boa compreensão desta sentença é necessário atentar para os seguintes itens:
1º) No original não se encontra a palavra corpo (soma), mas carne (sarks). Esta palavra grega tem vários significados, entre eles o de natureza ou tendência carnal. Por isso a tradução inglesa – Authorized Version – apresenta com propriedade I Cor. 5:5 assim: “Entregue ao domínio de Satanás o homem que assim pecou, para a destruição de suas cobiças carnais; a fim de que seu espírito se possa salvar no dia do senhor Jesus.”
2º) Nosso pródromo em crítica textual bíblica, o exegeta Arnaldo Christianini escreveu:
“O pensamento paulino era que o autor de tão infame pecado fosse imediatamente excluído da comunhão da igreja, entregue à sua própria sorte, sofresse fora da proteção de Deus, sob o domínio do príncipe das trevas, e viesse a cair em si, a arrepender-se e, finalmente, a ser recuperado na fé e salvar-se por ocasião da vinda de Jesus.”
Para comprovar suas afirmações ele cita alguns autores, que aqui transcrevemos:
Humberto Rohden: “Na qualidade de representante de Jesus cristo, excluiu S. Paulo da comunidade eclesiástica o pecador impenitente e escandaloso, entregando-o ao reino de Satanás, isto é, ao mundo dominado pelo príncipe das trevas, para que este castigo o faça cair em si (arrepender-se).”
P.. Matos Soares: “Seja o tal entregue a satanás, seja separado da comunhão da igreja, para a morte da carne, isto é, para ser atormentado no seu corpo por Satanás por meio de doenças, causadas pelos seus próprios vícios, de modo que, assim castigado, se venha a voltar para o bem, e sua alma seja salva.”
Do autor batista A. B. Rudd em seu Comentário às Epístolas aos Coríntios:
“Esta passagem não é difícil de entender. Paulo já tinha juízo formado sobre o caso, e dá instruções concretas à igreja. Sem entrar em todos os pormenores destas instruções, resume-as como segue: ‘O autor de tal ato incestuoso não é digno de ser membro de vossa igreja; portanto, em nome de nosso Senhor Jesus e com sua autoridade, separai-o formalmente da comunhão e, deixando-o assim no mundo cujo príncipe é Satanás, ficará sujeito à influência dele, que pode infligir-lhe no corpo moléstias que resultam logicamente dessa espécie de pecado. Este castigo servirá para despertar o arrependimento no transgressor e importará assim em sua salvação.”
A obra Exposição da Primeira Epístola aos Coríntios, págs. 51 e 52, do presbiteriano Charles R. Erdman, nos declara:
“A falta era gravíssima. o ofensor vivia maritalmente com a própria madrasta. . . Paulo, como se presente estivera na congregação, descreve o ato solene da disciplina como já estando a realizar-se: ‘considerai-me, pois, presente no vosso meio, a sentenciar, em nome de Cristo e com a vossa aquiescência, a excomunhão do autor da infâmia, bem como a sua entrega a Satanás, para que lhe imponha sofrimentos capazes de quebrar a força de sua cobiça pecaminosa, e assim venha a sentir arrependimento, seja restaurado à condição anterior, e se salve no dia do Senhor!. . .
“O que mais importa, porém, é observar que o sofrimento, qualquer que fosse sua natureza e procedência, teve como escopo reconduzir o culpado ao arrependimento, como uma advertência de que o alvo supremo de qualquer ação disciplinar na igreja é a reabilitação dos ofensores.”
Christianini conclui suas asseverações desta parte declarando:
“Não indica no texto que o corpo perece e a alma se salve. Dizem as Escrituras que Deus lançará na geena tanto o corpo como a alma. A salvação, como a perdição, abrange o homem integral.” – Revista Adventista, Julho de 1958, pág. 37.
Confirmando, que os comentaristas, apenas com palavras diferentes, insistem na mesma tecla, eis o que se encontra em The Interpreter’s Bible, vol. 10, pág. 62, ao comentar I Cor. 5:5:
“Na verdade, o apóstolo entrega o homem a Satanás, tendo em vista a destruição de sua natureza carnal. Isto também tinha seus precedentes: Paulo é fruto do seu tempo. Com a história de Jó e muitos outros exemplos em mente, ele partilhava da crença geralmente aceita, de que os poderes sobrenaturais do mal, estão sempre a postos para tentar e destruir os fiéis. Assim como Jó foi provado, testado e tentado muito mais atormentariam eles os que fossem desligados da comunhão da igreja. As conseqüências poderiam tomar várias formas, tais como enfermidade e sofrimento e até mesmo a morte. Tais idéias eram comuns naqueles tempos e não são desconhecidas da mitologia grega. Elas ainda exerciam uma poderosa influência na mentalidade judaica (Lucas 13:1-5). Paulo e a comunidade judaica partilhavam dessas opiniões.
“Portanto, invocando sua autoridade apostólica, e no sagrado nome do senhor Jesus ele entrega o homem a Satanás, para que através do sofrimento seu espírito pudesse ser salvo no Dia do Juízo. A porta não é cerrada para sempre. Tendo lugar uma mudança de coração, a restauração pode ocorrer. Contudo a disciplina é essencial. Os grandes padrões da moralidade cristã devem ser mantidos. Por todos os meios, que a disciplina seja em primeiro lugar persuasiva em seu método de lidar com aqueles que se têm desviado. Que a fraternidade, a amizade e a assistência cristã façam o máximo possível.”
Este estudo estaria incompleto se não acrescentássemos aqui o que diz o Comentário Adventista (SDABC) sobre o texto de I Cor. 5:5:
Seja entregue a Satanás. só existem dois reinos espirituais neste mundo: o de Deus e o de Satanás. Se alguém deixa o reino de Deus, naturalmente passará a participar do reino de Satanás (ver S. João 12:31; 16:11; II Cor. 4:4). Aquele pecador ousado e arrogante se havia, por seu próprio procedimento pecaminoso, se afastado do reino de Deus, e isso deviam os irmãos da igreja reconhecer, expulsando-o da igreja. Comparar com 1 Tim.1:20.
Para destruição da carne. As Escrituras chamam as práticas imorais de “obras da carne”. (Gál 5:19; Col. 3:5). Os cristãos são admoestados a não viverem segundo a carne (Rom. 8:13), A “destruição da carne” pode, pois, ser compreendida como uma mortificação dos desejos carnais. A idéia do sofrimento físico, que Satanás muitas vezes inflige, pode também estar incluída no sentido. Paulo denominou a sua própria enfermidade de “mensageiro de Satanás”. (II Cor. 12:7). Satanás é o autor das doenças e sofrimento. Portanto a pessoa ímpia, o autor do incesto, devia ser deixado, sofrendo as conseqüências do seu procedimento indigno.
O espírito. Por ocasião da ressurreição os homens receberão novos corpos. O corpo que agora temos voltará ao pó (Gên. 3:19).
Seja salvo. A finalidade da sentença aqui descrita é correcional. Isto era verdade também no caso de Himeneu e Alexandre, que Paulo ‘entregou a Satanás’ para que aprendessem a não blasfemar (I Tim. 1:20). A disciplina da igreja destina-se a despertar o transgressor, levando-o a reconhecer sua situação perigosa e revelar-lhe a necessidade de arrependimento e contrição. Uma vez corrigido e humilhado pela disciplina, pode o pecador retornar a uma vida de virtude e fé. O alvo da punição da igreja não deve nunca ser a vingança, mas recobrá-lo da ruína. O membro excluído devia ser alvo de profunda simpatia por parte da igreja, e ingentes esforços deveriam ser feitos para conseguir sua restauração espiritual (ver S. Mateus18:17; Rom. 15:1; Gál. 6:1-2; Heb. 12:13).”
Um ponto final poderia ser colocado neste comentário, pois creio que a declaração de Paulo está bem clara, mas atendendo também àqueles que gostam de multiplicar exemplos comprobatórios, vamos transcrever o de M. C. Wilcox, do livro Questions and Answers, pág. 179:
“É certo que a igreja de Deus, se ela está na situação em que deve estar, é lugar sagrado, seguro, abençoado; mas uma pessoa como a descrita em nosso texto perdeu todos os direitos à igreja, e o Senhor queria que ele não continuasse sob a proteção da igreja, e experimentasse o que significava ficar fora e lutar sozinho contra Satanás. Isso devia a igreja fazer a fim de levar o pecador ao arrependimento, e assim pudesse ser salvo – não salvo em sua carne concupiscente, mas salvo em sua vida espiritual. A julgar pela segunda epístola, parece claro que o homem se arrepende, e Paulo pede à igreja que o receba, para que não seja devorado de demasiada tristeza. II Cor. 2:6-11.”
Da expressão – “a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor”, o vocábulo espírito merece esta referência:
Os dicionários gregos que mais se notabilizam, como os de Liddell e Scott, Arndt e Gingrich, apresentam para a palavra “pneuma” além dos sentidos comuns de sopro, ar, respiração, vento, vida, etc., o de ser vivente, pessoa

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